A maternidade através das idades
Há milénios a mulher reinava em soberania sob a égide protectora de Maia, a deusa mãe do universo. Reconhecida como única detentora da reprodução, sob a influência fértil dos pólens e dos ventos, ela gozava de uma supremacia incontestada. Mas, com a instauração de um modo de vida sedentário, o homem teve a ocasião de observar a natureza, que lhe fez esta perturbadora revelação: havia também um poder progenitor. Então tudo oscilou, o homem tinha uma desforra a tomar e assim se abriu a era do patriarcado.
O poder de conceber sempre inspirou receio aos homens. Estes, afim de compensar a sua fraca participação no fenómeno da reprodução, submeteram o nascimento a regras, como o reconhecimento obrigatório da criança pelo pai. Apropriaram-se deste modo do nascimento social da criança.
Na Idade Média, com a emergência do discurso cristão, as mulheres tinham apenas duas vias possíveis para resgatar o pecado original de Eva: dar à luz (entre oito e onze crianças por mulher), ou a virgindade. A mulher grávida estava então reabilitada visto que se encontra na via do perdão.
É apenas a partir do século XVI que a mulher grávida vai começar a ser objecto de maiores atenções: o corpo médico, tomado de uma compaixão súbita, inclina-se enfim sobre as aflições da gravidez afim de suavizar a "sorte" da parturiente.
Apesar de alguns recuos no início do século XVII, a gravidez deixa pouco a pouco de ser a expiação de um pecado para se tornar na realização do casal. Mas continua uma assunto de mulheres, estando o homem à margem do parto.
No século XIX, a moda traz as cinturas finas e os espartilhos. E se bem que o ventre redondo não corresponda aos cânones da beleza, o papel de mãe é cada vez mais valorizado.
É no século XX que, feminismo e progresso médico ajudando, a gravidez tornou-se no que é hoje: um estado privilegiado, porque desejado.
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